Filed under: Surf | Etiquetas: amigos, aprendizado, Bate-volta, felicidade, vida

Num desses jantares onde a gte acaba falando da vida, conversando com o Di batemos numa tradução certeira desse tempo que estamos vivendo. “A gente se define na fronteira”. A nossa co-existência em dois lugares, dois estados de espírito, dois universos pra onde ir e de onde escapar, é o que parece nos definir de forma mais característica. É um tipo de co-presença especial, sem matizes, sempre em transição, sem tirar a mão da chave “on/off”.
A cabeça e o corpo nunca parecem estar no mesmo lugar. Se estamos aqui, já estamos sonhando com lá. Quando chegamos lá, já descobrimos que precisaremos voltar pra cá. Ou pra contar a história, ou porque sacamos que não pertencemos ao mundo do lá, ou do aqui. Pertencemos à transição. Fugir é o ato de transformar a prisão de agora no refúgio pra onde retornaremos amanhã. É um processamento que fazemos por dentro.
Acho q na verdade essa transformação é a razão da fuga-retorno. Precisamos dela pra renovar o olhar sobre aquilo que deixamos do outro lado da fronteira. É mudando de lugar que gte muda o significado do ponto de partida e de destino. É a periódica lavagem das calçadas.
Trazendo as coisas mais pra esse planeta: acho que de tanto falarmos em “fazer” bate-volta, acabamos construindo um aprendizado, de que na verdade “somos” bate-volta. (mais…)
Foi quebrada uma sequência de 5 ou 6 semanas de bates. Muito boa aliás; não me recordo de mesma constância de oportunidades pra descer e previsões que nos mantiveram otimistas pra pegar aquele mar que sempre sonhamos – sempre acordados, claro. Foi quebrado também uma ausência de posts meus no blog. É verdade que não tenho saco pra ficar alimentando conteúdo na internet o tempo todo, mas assim como também é que eu já estava com saudades de escrever e que muitas e muitas “pautas”, algumas até interessantes eu acredito, se perderam no dia e no tempo.
Nesse período teve de tudo: puro glass, maral, terral, sol com frio, calor sem sol, crowd, outside vazio, 1, 2, 3, 4 e 5 amigos, solo, fish, gun, a do dia-a-dia, saida na madruga, chegada no dia anterior, equipe de reportagem interessados na nossa “rotina”, tubo, manobra, só a linha, acelerar, atrasar, vacas, muitas vacas, trânsito na volta, estrada livre, a costumera depressão na chega a SP, e por último e mais importante, a constante presença e benção daquela tartaruga que aparece e faz abrir o sorriso. Todos foram bons, mas o último foi especial. Fui sozinho. Roots. E que começo de semana foi aquela passada. Sem mais adeptos já que o primeiro fds de agosto veio com sol e boas ondas para os amigos que desceram e o assalariado aqui ficou trabalhando sábado e domingo, o bate era mais que necessário, foi essencial. A previsão já dava a dica que a ondulação ia segurar, e por mais que as cobertas estavam mais que convidativas, lá fui eu acordar antes mesmo do despertador tocar. Poucos minutos passados das 4 da madruga e os passarinhos com o canto incessante anunciavam mais um dia, pra mim, não um dia qualquer. O barulho constante da cidade, aquele zumm que cresce durante o dia e diminue durante a noite, mas não pára nunca, parecia pra mim o barulho do mar naqueles dias que o estrondo das ondas gela a barriga. Gostoso incômodo. Mas a fantasia do som do mar acaba quando ligo o carro pra contribuir com o zumm. A caminho do mar, só precisava dar aquela passadinha rápida pra pegar minha prancha e meus leashes na portaria do prédio do amigo. Fácil, se o brother não tivesse ido pra balada em pleno domingo e esquecido de deixar a prancha no jeito com o porteiro. Conversa vai com o porteiro desavisado, algumas caixas-postais e vem a informação que meu amigo chegara não tinha mais que 33 minutos. É, a balada foi boa mesmo! Mas os passarinhos já tinham anunciado o dia, consegui falar e mais 5 minutos a prancha desce. O posto foi o último obstáculo antes da estrada, tanque cheio e vejo que já são 5 da manhã. “Caralho, ainda to em pinheiros!’ penso. Zumm e 6:02 estava freiando o carro no primeiro farol do Guarú. Bem-vindos. Obrigado.
O dia ainda não era dia, dava tempo de conferir o pico de sempre e escolher, mas minha vontade era mesmo de cair ali no centro. Fazia tempo que não pegava onda ali. Fui e voltei, tempo certo pra dar a primeira clareada. Mas o dia era das nuvens. Agilizo de parar o carro no prédio do amigo que nunca vai – desperdício! – e depois de acordar o porteiro, gente finíssima, consigo pisar na areia por volta das 6 e 20. Nossa, quanto tempo, quantos rodeios, quanta grosselha pra chegar até aqui, ali, na areia, vista mar, praia cinza e vazia. Frio. Mas pra que serve os 20% de gordura? nada de john. A poética imagem da praia vazia, dos prédios tapa sol, da ilha, da árvore da ilha estava completa: 4 pés sólidos tubulares, clean conditions, nada além de uma brisa insignificante, eu e minha fish. Agradeço, agradeço (continuo agradecendo até hj é verdade) e entro. O resto é até previsível, não fosse o peculiar fato de eu ter surfado por mais de uma hora solo, sozinho, all alone, sem ninguém pra dividir. Ao menos pra mim é verdade, quando o dia é bom, e vc surfa sozinho, existe a vontade de dividir aquilo tudo, mesmo que com um desconhecido que não troque um só palavra.
Surfei bastante, corri esquerdas, dropei poucas direitas, mas as esquerdas…. no começo era hora do bottom e encaixar, atrasar um pouco e ficar ali na porta – é, sempre digo que se soubesse surfar dava pra tirar alguns tubos…rs. Mas depois da maré mudar um pouco o shape vieram aquelas só pra acelerar, fazer a linha o mais suáve e rápido possível, esquerdas fortes, pra morrer dentro em muitas…. foi demais. Um puta sessão de surf. Mas nem tudo é tão lindo quanto parece e tenho que ser coeso com a realidade. É Guarujá, a maioria das ondas fechava no inside e o que acordava qualquer sonhador como eu era o cheiro, a fétida água marrom do lugar, isso sim encomodava e diminuia a beleza do dia que os passarinhos anunciaram. Mas sou da corrente positiva; prefiro o olhar sonhador de grande parte de meu relato, das boas ondas surfadas e mais uma vez, do sorriso aberto ao ver mais uma vez ela, aquela tartaruga.
Abs,
Felipe Barros
Filed under: Surf | Etiquetas: amigos, aprendizado, felicidade, Surf, vida
Poderia discorrer muito sobre o tema e algumas histórias pessoais para contar, mas acho que nem tem muito o que escrever, só admirar, agradecer e aprender. Reflita. Surf é vida.
Veja esta matéria realizada pelo programa Mais Você, da rede Globo, neste link.
abraço e boas ondas!
Felipe



