Revista Veja São Paulo - 12 jan 2009

Guarapiranga, no sul da cidade, não é apenas ponto de encontro de paulistanos velejadores ou que praticam esportes radicais como wakeboard. Nos clubes e escolas instalados em toda a sua costa, é possível fazer um passeio de barco por 7 reais, alugar uma lancha por 50 reais ou aprender windsurf por 415 reais. Diversão, ainda que na água doce, é o que não falta por ali. (mais…)
Artigo publicado na pg 140 da revista Alma Surf edição 46 – Especial Festival Alma Surf
A diversidade cultural é um ponto forte do Festival Alma Surf, mas especialmente este ano ela não parava de crescer. Confesso que me sentia como se estivesse naqueles dias em que o mar está enorme e você fica com os pés bem firmes na areia, sentindo o estrondo das ondas e aceitando a adrenalina tomar conta do seu corpo enquanto busca coragem e energia para ir em frente. Falar sobre essa diversidade é fascinante. Porém, assim como no surf de ondas grandes, entrar neste domínio requer muito respeito, ainda mais quando se trata de um evento surf que reuniu quase 20 mil pessoas em 4 dias, vindas de todos os lugares do Brasil e do mundo.
Durante os meses que antecederam o Festiv’Alma 2008, tive o intenso e prazeroso trabalho de pesquisar e contatar artistas, fotógrafos, músicos, colecionadores de carros, empresários, surfistas e shapers de todos os lugares, que, assim como nós, trabalharam muito para participar desse evento. Foram inúmeros e-mails e telefonemas para os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Bahia, Ceará e Pernambuco. Hawaii, França, Itália, Inglaterra, Austrália, Espanha, Irlanda, África do Sul, Chile, Argentina, México, Canadá e Estados Unidos, são apenas alguns DDIs que constaram em nossa conta de telefone.
Entre os dias 9 e 12 de julho de 2008, na Bienal do Ibirapuera em São Paulo, tive a oportunidade de materializar em pessoas esses contatos, que até então estavam sendo criados e manipulados em minha mente. Tão bom quanto entrar naquele mar grande e dropar logo a primeira bomba da série, é poder conferir de perto um solo expressivo de guitarra, apertar as mãos que deram vida à aquela obra de arte, manobrar um carro antigo, encarar o público. É maravilhoso poder tocar na réplica da prancha que riscou as paredes de Todos Santos no México, assistir a um filme do Festival Internacional de Cinema e se deparar com um dos atores sentado ao seu lado, olhar no fundo dos olhos daquele fotógrafo que deixou todo mundo ver o que só ele viu.
Assim como no surf, essa sensação é intensa e rápida. Quando você menos espera, a Bienal está vazia e você já lança para o primeiro que aparece na sua frente: “Você viu o show do Henry Kapono? E do Guru’s? As fotografias do Sebastian Rojas? As obras do Sandow Birk? E as do Jasar, então? O peixe-espada do Gilmar Pinna? O Fusca com teto solar original de 1965? As ampliações gigantes de ondas idem do fotógrafo Fred Pompermayer? Aquele onda do Burle? O Resende? Viu o filme Bustin’Down the Door? O Peter Townend? Os lounges do Salão do Surf? Você viu a Árvore Genealógica dos Shapers do Brasil? E a instalação do Arturo? Você viu? Viu? Viu?”
É inevitável. É humano. É surf. Só quem já esteve no outside sabe o quanto é bom remar em direção ao crowd e com um simples olhar indagar se alguém viu a sua onda. A resposta: “Whoohoo” com um sorriso escancarado no rosto. É perfeito. É o suficiente. É o reconhecimento espontâneo de muito trabalho, dedicação, esforço e paixão.
Mas, também como no surf, as ondas não param de quebrar nunca, e mais satisfatório ainda é sentir que o Festival não acontece em apenas 4, 10, 20, 30 dias, ele acontece o ano inteiro, dia após dia, e-mail após e-mail, contato após contato. Aliás, a Mostra do Surf já acontece há 5 anos, desde a primeira vez na Bienal, no mesmo Ibirapuera. E desde aquele dia, desde o primeiro e-mail, o evento só cresce, encorpa e ganha respeito e tradição. E agora, a VI Mostra do Surf já começou, o próximo Festiv’Alma já está badalado, e artistas, fotógrafos, diretores e a mídia em geral começam a nos procurar, todos querendo fazer parte desse movimento cultural proposto pela Alma Surf, que é o próprio viver do surf.
Costumo dizer que sou capaz de visualizar perfeitamente os lugares e as pessoas que realmente marcaram alguma passagem nessa vida. Não preciso de fotos nem de vídeos. Isso é ação criada pela emoção. Está tudo aqui. Basta fechar os olhos e começar a passear pela imensidão da Bienal, do Festival Alma Surf, lembrando cada detalhe, som, imagem, espaço, pessoas, cultura, idioma, sorriso, sensação, aprendizado. Certas vezes disseram que “recordar é viver”, portanto, vire e revire as páginas da revista Alma Surf e viva um dos maiores festivais de cultura surf do mundo. Seja bem-vindo. Você faz parte dessa festa.
Por FELIPE BARACCHINI
Para saber mais visite Festival Alma Surf 2008
Ovelha
A REVISTA SERAFINA acompanha paulistanos que descem para o litoral no meio da semana só para surfar 45 minutos antes da jornada de trabalho na capital.

Miguel, Tato, Marquinhos, Caio, Robério e Felipe
São 4h30 de uma quarta-feira. Amigos conversam num posto de gasolina na avenida Cidade Jardim, em São Paulo. Quem passa pode até pensar que estão vindo de alguma festa, mas a cara de sono entrega: eles acabaram de acordar. E juntos vão encarar a estrada até o Guarujá para surfar por menos de uma hora. Na volta, enfrentarão trânsito para chegar ao trabalho no horário.
Parece um devaneio adolescente, mas trata-se de apenas mais um “BV”, ou bate-volta, evento que transforma profissionais paulistanos bem-sucedidos em amadores do surfe nas madrugadas frias do litoral sul do Estado. No fim de maio, a reportagem da Serafina acompanhou a aventura de um grupo desses, formado basicamente por publicitários.
Os sete, com idade entre 24 e 38 anos, trabalham duro, em média 12 horas por dia e muitas vezes nos fins de semana. A rotina puxada, no entanto, não impediu que eles trocassem diversos e-mails entusiasmados antes do encontro. Pela internet, acompanharam as mudanças do tempo e cada informação disponível sobre as condições para o surfe no Guarujá. A previsão era que, naquela manhã específica, as ondas na região alcançariam 1,4 metro e a temperatura da água estaria entre 19 e 21oC.
“Isso deixa a gente cheio de expectativa, mas já aconteceu de chegar e o mar estar flat [sem ondas]“, diz o pernambucano Miguel Bemfica, 38. Iniciante no surfe, ele trabalha numa das maiores agências do país e já ganhou seis Leões em Cannes, o mais importante prêmio da publicidade no mundo.
Não ter onda é, sem dúvida, um grande risco para quem resolve embarcar numa viagem dessas. Mas nenhum dos sete demonstra preocupação com essa possibilidade. “Se a gente pensar assim, nem levanta da cama”, diz o diretor de arte Renato Butori, 28, que nunca dorme direito na noite anterior ao “BV” com medo de perder a hora. Nesse dia, ele tinha acordado às 3h40.
Enquanto decidem quem vai em cada carro, Caio Mattoso esfrega as mãos. Faz frio, mas ele resolveu sair de casa calçando sandálias e já vestindo a roupa de neoprene com que vai cair no mar. “Pra quem mora numa cidade sem praia, os ‘BVs’ são uma carta de alforria”, diz o paulista de 24 anos.

Robério tomando fôlego para enfrentar a arrebentação
FORMAÇÃO RUIM
Divididos em três carros, os amigos iniciam o percurso de 87 quilômetros. A estrada está vazia, mas há trechos com bastante neblina. O sono é vencido com músicas de Ben Harper, Lemon Jelly e Sublime. As conversas são sobre trabalho.
Numa pequena mala, Marcus Meireles, 36, carrega frutas, barrinhas de cereal e bebida energética para a turma. Baiano criado no Rio de Janeiro, Marcus mora em São Paulo há nove anos e ganhou prêmios em diversos festivais internacionais. “Para mim, o ‘BV’ não funciona apenas para sair da rotina. Busco qualidade de vida”, explica Marcus, que também faz pilates e musculação.
São 6h quando, finalmente, chegamos ao Guarujá. O céu está escuro e a primeira parada é a praia do Tombo. Todos andam até a areia e olham, em silêncio, para o mar. “A formação das ondas está ruim”, comenta o jornalista da turma, Felipe Baracchini, 24, sete anos de surfe e três de “BV”. Resolvem ir até Pitangueiras. Conferem as ondas e partem para a terceira opção: a praia das Astúrias, onde decidem ficar.
É nesse momento que tudo toma velocidade. Porque, pior que um mar flat, o maior inimigo de um bate-volta é o tempo. Na calçada, tiram a roupa e passam parafina nas pranchas. Quem tem bolso na bermuda guarda a chave do carro. Quem não tem arruma um esconderijo.
Na areia, Robério Braga, 37, faz um rápido alongamento. Essa é a segunda vez que ele, dono de uma produtora e diretor de filmes de grandes marcas de cerveja e refrigerante, participa de um “BV”. “Minha semana vai ter outra cara agora”, diz. Perto dali, Tomás Correa, 31, redator de uma multinacional presente em 84 países, corre de um lado para o outro. Pouco antes do sol nascer, todos estão no mar. São 6h30.
BANHO DE GATO
Os sete parecem se divertir no pico que escolheram. Mas os olhos não saem do relógio. Eles têm apenas 45 minutos para surfar. Em cima de cada onda serão apenas míseros segundos.
Marcus é o primeiro a sair da água, às 7h25. Logo em seguida aparecem Robério e Miguel. Do porta-malas do carro, eles tiram garrafas de água mineral e jogam na cabeça. Tentam tirar o sal do cabelo e a areia do corpo. “É a única maneira de tomar banho”, garante Marcus, trocando a roupa no meio da rua.
Pegar a estrada de volta para São Paulo é a parte mais desgastante da “trip”. O trânsito é inevitável e as blitze são comuns. Apesar da pressa, o assunto dentro do carro é só surfe.
“Acordar antes das 4h para ficar menos de uma hora no mar e voltar para trabalhar não é para qualquer um. A maioria desiste logo depois de fazer o primeiro “BV”. Não tem como a gente não se sentir até um pouco herói”, confessa Tomás.
Na entrada da cidade, os engarrafamentos são o grande pavor. Já são quase 9h quando a avenida Bandeirantes começa a estressar os surfistas. Mas o trânsito não dura muito e, antes das 9h30, todos estão de volta ao posto de gasolina, onde se encontraram cinco horas antes.
Sorrindo, os amigos se despedem e cada um segue para seu trabalho. “A sensação de felicidade que o ‘BV’ nos traz faz o dia render como nenhum outro”, finaliza Renato. “Hoje vi duas tartarugas no mar. Você acha que alguém no meu trabalho vai acreditar nisso?”
por ROBERTA SALOMONE
Ovelha




