Bate-Volta – chegar, surfar e voltar.


A arte de perder.
novembro 5, 2009, 7:46 pm
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Recentemente fiquei sabendo do blog do surfista Dane Reynolds. O Dane é um dos surfistas que eu mais admiro ultimamente, tem uma atitude “foda-se” muito diferente da maioria dos caras que se matam para ganhar e aparecer no tour. É low profile apesar de toda a expectativa que se tem sobre o surf dele, e além de tudo surfa como ninguém, unindo tantos estilos que fica difícil de dizer a qual escola pertence se não a mais interessante e inovadora já vista no surf de competição. Mas seu blog mostra que, além disso, tem outros talentos, tira boas fotos, faz filminhos interessantes, e tem referências peculiares.

Há algum tempo, surfistas passam a ser respeitados não só pela sua habilidade em domar massas de água, por se colocar em situações de risco. Jack Jonhson acho que foi um dos primeiros a aparecer na grande mídia como surfista, mas fazendo música e filmes, ambos de muita qualidade. Depois dele lançou-se uma tendência, de surfistas com conteúdo. Muitos apareceram, apesar de estarem sempre ativos como surfistas: Tom Curren é um guitarrista incrível, Ozzie Wright mostra seu estilo tosco nos desenhos e pinturas, os Malloys são documentáristas e filmakers, Tim Curran está lançando uma carreira de músico solo, assim como já fez Donavon Frankenreiter e por aí vamos, a lista cresce. Não é de hoje que os esportistas migram de uma carreira para outra. No skate percebo a mesma coisa: skatistas profissionais fazem marcas como steve Alba, viram atores como Jason Lee, músicos como Tommy Guerrero. Será que depois de ser pago para fazer o que mais se ama, perde-se o encanto? Será só uma questão de evolução, ou simplesmente mudança de ares?

Nada disso. Na verdade creio que todos nascem com um talento para se expressar artisticamente, mas descobrem ou desenvolvem este dom com o tempo. O que mais me interessa nisso tudo é que geralmente eles não desapontam, todos os citados são bons no que fazem. Aliás, muito bons. Não podemos estimar que isso se deve à quantidade de contatos ou à exposição num ambiente extremamente criativo, envolto de contatos essenciais para uma carreira artística. Talvez isso somente acelere o processo. O esporte, qualquer que seja, ensina muito sobre disciplina e a convivência em sociedade e, no caso do surf e skate, ensina uma expressão pessoal única, uma éspecie de polimento de estilo que poderia ser aplicada em diversos outros casos, diferentes de qualquer outro esporte. São esportes praticados por jovens, e se tornam a expressão de jovens, assim como o rock, este, uma importantissíma expressão que quase sempre vai contra os princípios da sociedade, pois é repleta de rebeldia. Quem frequenta shows de rock, festivais, sabe muito bem do que eu estou falando.

Quando você tem a possibilidade de fazer viagens ao redor do mundo, em lugares que são destinos comuns para surfistas, mas completamente estranhos para 90% do resto da população não-surfista, vagando por cidades e explorando pedaços de concreto, é fácil falar que você está pensando e vivendo diferente da maioria da população. Ao invés de prestar atenção nos carros e nas vitrines, a cabeça fica presa a sua constante evolução de estilo, um refinamento quase sem fim. Com isso, tudo além fica borrado. Eu penso: a maioria das coisas fica sem graça depois que você pula uma escada de 10 degraus sem cair e arrebentar os dentes, ou fica em pé numa onda de 2 metros (a descida geralmente tem o dobro disso) que quebra sobre poucos centímentros de pedras sólidas num deserto estranho longe de seu país, ou pinta uma parede enorme, sabendo de todos os riscos, entre eles ser esculachado, pintado e até preso pela polícia. Essas atividades são cada vez mais desafiadoras. Completá-las, sobretudo, cada vez com mais estilo e perfeição, torna-se uma obsessão, evolução é sempre o objetivo.

A busca pelos meios de expressão e a pela evolução se dá digerindo documentos, fotos, trilhas e filmes de indíviduos mais evoluídos, que dominam a fina arte de se expressar sobre um prancha e os que documentam de uma forma sensível e expressiva. Esses são uma espécie de material de estudo para sua ciência do esporte, que toma conta e controla sua vida. A partir daí, fica fácil entender a quantidade de envolvidos neste ambiente, filmes de surf e skate, marcas de roupas, fotógrafos, trilhas sonoras, e ainda um mercado para tudo isso, uma demanda de material de estudo, composta pelos menos experientes e ávidos por mais imagens que aceleram o coração, inspiram.

Cria-se uma contra-cultura, que não nasce nas salas de aula, faculdades, enciclopédias. Cresce na rua, no mar, indo pra escola, voltando da praia, tocando com os amigos, reunindo bandas e fazendo eventos independentes. Nasce a partir de uma vivência, dedicação e sobretudo um estilo de vida, que geralmente não condiz com os padrões impostos pela sociedade e não consome os produtos anunciados pela publicidade. Ali, os apaixonados praticantes, que na maioria são adolescentes, alunos do fundão, pouco interessados no estudo que não tiram o fone de ouvido e não param de desenhar nas carteiras, têm finalmente a chance de mostrar seu outro lado, de talento e habilidade.

Recentemente (mas não tanto) uma mostra de arte que reuniu nomes do skate, surf, grafitti, música e tudo mais que se aprendeu na vivência de fazer o que mais se gosta, foi aplaudida de pé pela crítica de arte mundial, e promoveu para o grande público alguns velhos conhecidos de quem sempre assistiu clipes, filmes de surf, skate e grafitti. Entre eles, Ed Templeton, Spike Jonze, Harmony Korine e Thomas Campbell. Esta mostra saiu da California, cresceu e viajou o mundo, virou filme e ainda promove os integrantes cada vez mais.

Mas ainda é difícil pra mim explicar o que eu quero da vida quando só penso em surfar, andar de skate e desenhar, ao invés de procurar um emprego comum de 10 horas por dia num escritório sem janelas. O que eu realmente recomendo; é mais fácil comprar um livro do Kelly Slater, trabalhar num emprego desestimulante e surfar de vez enquando só para se sentir menos morto.

http://www.beautifullosers.com/

http://www.marinelayerproductions.com/

Abs

Mau

 

 



Um jurado surfista no Festival Osklen de Cinema

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Eu descobri que o surf é um bicho do tamanho desse planeta, que troca de pele e cérebro todo ano. Se vc quer ter uma imagem clara do que foi esse bicho em 2009, eu RECOMENDO MUITO que você assista todos os filmes (de surf) da mostra de cinema do Festiv’Alma .  Esse foi um artigo que escrevi pra edição set/out da AlmaSurf , sobre a experiência de jurado no Festival Osklen de Cinema. Tks ao mestre Romeu Andreatta, Adriano VASCOncellos e ao meu irmão Felipe Barachinni.

 Aloha!  Zé Lucas

ARTE DO CONCEITO

Aqui na minha frente está, ou neste momento de leitura estava, o questionário do Festival Osklen de Cinema. Três páginas com algumas poucas e decisivas perguntas: “Em qual filme quebrou a melhor onda? Qual possui a melhor fotografia? A melhor trilha sonora? O melhor surfista?” E a definitiva: “Qual é o melhor filme de 2009?” (mais…)